sexta-feira, 18 de abril de 2008

Flashback

Aí tudo era fácil. A inocência trazia consigo a verdade. Tudo era simples e sim, tudo continua a ser simples. Disseste-lhe que para sair da situação em que se encontrava, ou melhor, da forma como perspectivava o que a vida lhe apresentava neste momento (na verdade há muitos momentos) teria que voltar a lembrar-se de como era com 4 anos de idade. Aí já temos a nossa essência, o que não é mutável em nós. Sinto-me tentada a recordar. Não. Sinto-me obrigada a voltar para perceber.

A psicanálise afirma que a estrutura da personalidade já está formada aos quatro ou cinco anos de idade.

Preocupava-me imenso contigo. Tinha cuidado. Muito. Não te podia magoar nem desiludir. Não o permitias. Fixava o tecto do quarto enquanto pensava. Sim, naquela altura já pensava - muito. Tinha esperança que houvesse uma mudança. Chorava a pensar que isso pudesse acontecer. Comecei cedo a carregar as tuas tristezas e as tuas expectativas. O nó não se desfazia. Até hoje ainda não tive coragem de afiar a faca. Perdia-me nos meus pensamentos. Queria ver-te feliz. Eu? Não interessa. Queria ver-te feliz. Feliz.

Não havia libertação aos 4 anos. A inocência não permitia que eu soubesse sequer que isso era possível. Continuo a ter as mesmas sensações hoje - mais de duas décadas mais tarde. Tenho pena. Nessa altura também. Eu? Não interessa. Eu era uma prolongação de ti. Hoje também sou. Tenho uma vontade diferente.

Depois conheci-te. Carregava o que me davas. Eu? Não interessa. Impensável desiludir-te. Desiludir-me a mim? Não interessa. Também criaste expectativas? Eu senti que sim. Sinto sempre que sim. Não te podia desiludir. Talvez o permitisses mas eu não. Senti contigo o que senti 4 anos depois de nascer. Talvez aos 3. Quem sabe. És tu? Foi ela? Será ele? Elas são minhas. Quero devolvê-las. Do you have a return policy?

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